4 de março de 2016

Quis chegar a casa, colocar as chaves na fechadura e entrar na redoma que me iria fazer esquecer as horas anteriores - pensava eu. Assomaram-me de repente, como quando te tocam nas costas de uma maneira tão inesperada que te fazem arrepiar. O curioso nas voltas que a vida dá, nos capítulos inacabados que ela segue escrevendo, é que nunca aprendes a acostumar-te às surpresas. Gosto delas se não souber que existem. Detesto-as se as sinto por perto e ainda assim tardam em chegar. Foi inesperadamente também que me surgiste, num dia tão indefinido quanto nós próprios, cercado pelas metáforas com que me ancoraste à chegada. Sempre foram as metáforas, o raio das metáforas que te escondiam por trás. Eu, pouco a pouco, passo a passo, decifrava-as como se aos poucos desvendasse um pouco de ti também. Encarava-as como enigmas e juntava-as uma a uma para te conhecer. Para me conhecer. Há de nascer o dia em que eu consiga arranjar uma razão para seres o único a saber ler as minhas entrelinhas, tão bem quanto eu. Até lá, saboreio. Saboreio-te a cada letra.
Tenho-te como mais ninguém te tem.
Foi isto que lhes disse quando me questionaram. Provavelmente agarrei as mangas da minha camisola umas cinco vezes, mas ninguém reparou. Também pestanejei incessantemente quando a resposta era tão robusta como a minha própria imagem de ti, mas ninguém reparou. Nunca ninguém repara. Nunca ninguém reparou. És assim tão louco por quereres ser louco, ou é a loucura que te rouba a sanidade em cada encruzilhada? Não sei. Mas se for para reparares nos pormenores que eu própria desconheço, podes pegar na caneta, sentar-te na minha secretária e seres louco o resto da vida.

Se para te ler, tiver de inventar o mundo
É com prazer que o reinvento

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