20 de fevereiro de 2015

A culpa é do semáforo intermitente, das peles que dos meus dedos vão desabrochando, dos corpos que os demais passeiam nas ruas e tua. São cidades emergentes essas que crio no meu imaginário por onde viajo quando nada mais me prende à cadeira onde hoje me sento. Ampara-me como se me abraçasse o fundo das costas, aquece-me como se soprasse de leve ao meu pescoço. Não sei por que escrevo se confortável me sinto, por que razão a minha esferográfica percorre o papel se ouço vozes que chamam por mim. Desaguo sem achar argumento e tudo me parece tão natural quanto o bocejo de alguém que pouco mais de cem pestanejos executou durante a manhã. Embora fossem tempos de guerrilhas e discussões acesas, a minha postura adotou a cómoda indiferença de quem se adapta às circunstâncias. Corressem rios de palavras mandadas para o ar ou fizessem pirâmides de cadeiras em cima das mesas, as minhas sobrancelhas permaneceriam intactas. Guardo tanto no meu peito que as costuras se queixam do tanto que já transbordo. Vão correndo por aí, nessa estrada que aqui de longe vejo e todos os dias percorro, pedaços de carinho intermináveis. Estáveis, caem no chão e não levantam voo com o vento que de manhã e ao fim da tarde se faz sentir. Já não os apanho no caminho de volta porque o amor é raro e a minha atitude impudica. 
Se mais tarde me perguntarem se por ali terei passado, direi que sim. Deixei que o amor se impregnasse naquele chão, que chamasse à vossa atenção. Prestada, saber-vos-á a chocolate quente numa tarde de Inverno. 

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