2 de janeiro de 2015

Esperei que entrasses no autocarro. Não olhaste para trás, não esperei que o fizesses. Ver o mundo inteiro que deixamos para trás faz-nos cair num beco sem saída. Numa tremenda corrida de perguntas às quais não obtemos respostas. Enquanto te via, sentia as lágrimas a percorrem o meu rosto, o pescoço até. Lágrimas tão frias, tão dolorosas, que não cessavam. Imaginei mil e um cenários enquanto te via a subir as escadas, confesso. De olhos molhados e entre soluços, imaginei o dia em que chegavas para ficar. Sem que eu soubesse, sem que eu desconfiasse até. Encontrava-te na mesma esplanada, numa mesa bem perto da minha. Por mero acaso - um acaso acidentalmente planeado em cima dos joelhos - tocavas-me no braço e, sem uma expressão denunciadora, perguntavas se te encontravas na mesma cidade onde tocaste o céu. Imaginei a minha expressão de êxtase, combinada com uma enorme vontade de te responder, já embalada pelo teu abraço, que sim. Que te encontravas na mesma cidade onde ambos tocamos o céu. Onde desordenamos as estrelas para que pudéssemos escrever o nosso nome. Onde me mostraste pela primeira vez uma estrela cadente. Onde pedi 12 desejos de costas voltadas, embora estivesses presente em grande parte deles. Onde fomos felizes.
Não te sei precisar quanto tempo gastei a imaginar espetros possíveis para te voltar a ver. Alguns deles rebuscados, outros tão simples que me faziam sorrir. Quando virei as costas ao palco da nossa despedida, fugi. Consegui andar mais rápido que tu, admito. Não prestei atenção ao piso nem às pessoas, tampouco reparei se as lágrimas tinham traçado no meu rosto um caminho tão escuro quanto o misto de emoções que estava a sentir. Não me perguntes porquê, mas deambulei pela cidade nas horas seguintes. Silenciei o telemóvel, nem o ruído do quotidiano citadino me incomodava. Estava tão enclausurada no meu mundo... Ansiava voltar a enclausurar-me no teu. Propunha perguntas aleatórias e imaginava-te a responder. Somos tão idênticos até na maneira de dar respostas. Dava passos e, a cada rua percorrida, lembrava-me de um detalhe nosso. De um pormenor que faz a diferença. Daquele algo sem nome, sem descrição, sem explicação nem forma. Daquilo que nunca tinha sentido antes. 
Vou sentir a tua falta e nem uma metáfora transparece na perfeição as saudades que irei sentir. É sempre tão pouco o que te digo, é sempre tão gigante o que fica por dizer. Mesmo assim, e arriscando ficar encarnada de tanto corar em segredo, vou confessar que, das primeiras vezes que escrevi contigo no meu pensamento, abordei o facto de seres a única pessoa com quem eu gostaria de partilhar o meu silêncio. Por ser um silêncio com uma carga emocional imensa e por entenderes cada uma das minhas entrelinhas... Adivinha! "Davas-me contemplação e nada me dava mais prazer do que embrulhar-me em ti ao som do silêncio". E adivinhaste mesmo. És tão eu quanto eu me imagino ser, tão singular na maneira de me adivinhar. Não sei se se trata de um jogo de adivinhas, de um boletim de euromilhões com a chave correta mas, sim, sinto-me como se tivesse acabado de entrar num mundo de sorte onde só tu tens a chave. Num conto de fadas, o quão sortuda sou.
Ainda sinto o trajeto dos teus dedos no meu cabelo. Ainda ouço o teu tom de voz. Ainda consigo sentir o teu cheiro. A tua presença até. Pudesse eu envolver toda a minha vida numa transformação tremenda, dar dois passos e conseguir sentir o calor do teu abraço. Há contos de fadas sem máquinas do tempo nem lâmpadas mágicas mas eu prometo, sem data prévia, que um dia poderei dar-te um beijo na testa todos os dias. E se o mundo não acreditar em contos, em fadas, em amor... Provamos que somos capazes?
"E até quando os dedos no lugar das aventuras?"
E até quando a distância no lugar do teu aconchego?
Até quando o querer no lugar do acontecer?
Não sei, meu amor. Não sei. Mas sei que um dia essas frases serão capazes de ser contrariadas e, aí, diremos que não se trata do tempo nem do lugar. Mas daquele algo sem nome, sem descrição, sem explicação nem forma... Se não for amor, então nunca saberei se ele existe.

As minhas impressões digitais estão na tua esferográfica,
no teu bloco.
As tuas ainda estão em mim.

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