26 de novembro de 2014

E quando as torradas queimam

Esganiça da mesma maneira há anos, e eu nunca lhe mudei a melodia. Todos os dias, menos às Terças-feiras, às sete horas e vinte cinco minutos; Maldito despertador. Maldita rotina, maldita vida. Maldita cozinha que no Inverno me encolhe o corpo. Detesto as manhãs de Inverno, saio de casa ainda é de noite e quando chego, ao final da tarde, é de noite. Maldita estação. Maldita vida.
Já não me é nada. Deixou de me aleijar os ouvidos, de me forçar a pôr a almofada por cima da cabeça. Agora estico o braço como um idoso com osteoporose, lentamente. Osso a osso. No entanto, esboço sempre um sorriso quando o recolho e me viro para o teu lado. Confesso, é gratificante. És gratificante.
Alguém me acorda
Não sinto os teus lábios na minha testa nem tampouco sei se é o teu ombro que me toca nas costas. Não te sinto. Falta-me a coragem para envergar nessa procura, saber se és tu quem me anseia. No entanto, sobra-me a covardia que me assoma quando o meu pensamento se aproxima de ti. São tantas as nuvens que guardo no meu estômago, tantos os céus por rasgar. Tantas colinas traduzidas na minha voz. Tanta rouquidão neste mar. Como saber se o mergulho é seguro contigo se adormeço ao teu lado e não te conheço. Retiro de escuridão, este quarto que me afunda em interrogações sem fim.

Uma âncora prende-me a ti durante a noite sem que sujes o silêncio. Manténs-te em mim, eu em ti, paralisados neste vazio denso e obscuro. Não te vejo, sinto-te. As tuas pernas entrelaçam-se nas minhas, a tua pele funde-se com os meus poros. Não há dias sem noites assim, em que abarcas todos os teus anseios por um abraço meu. Não há dias sem noites de ti.
Tornou-se melancólico e rotineiro, mas sempre gostei de me levantar primeiro. De olhar para trás, aconchegar-te e dizer venho já. Às vezes falho a obrigação de lavar os dentes quando vou à casa de banho, numa tentativa anémica de não repetir os mesmos movimentos todos os dias; todas as semanas; todos os meses. Quantas vezes me esqueci eu de limpar a areia da gata? Merda, ela vai-se zangar comigo. Cheira mesmo mal.
Liquidifico-me como te liquidifico: rápido mas não tão rápido assim; o suficiente para deixar um rasto incolor. És tudo menos incolor, e mesmo assim, dás-me vontade de pegar no conjunto de pincéis e colorir-te. É assim que eu gosto das minhas torradas: com cor. Relativamente a ti, gosto do que te falta, da cor que te falta. Como se me obrigasses a meter gasóleo no carro propositadamente, só para te ver a entrar no meio da multidão numa tentativa efémera de, entre as gabardines e chapéus-de-chuva, aconchegares-te na tua solene camuflagem. Dá-me graça quando tentas fazer o mesmo entre os lençóis, com receio que a luz te desmanche os olhos.
Até que a luminosidade entra em cena, fazendo com que te desmontes em mil peças. Foges. Tenho saudades tuas em segundos sem ti. Tateio os lençóis, os mesmos que nos encobriram em horas já findas. Não estás. Sei que não irás voltar. Algo me diz que só a noite te traz, que vives no silêncio. Que és em mim. Interrogo-me se serei em ti também...
...E é quando as torradas queimam.


Sei que pareço um tótó, com meias e de chinelos de enfiar no dedo. Com os calções azuis do Futebol Clube do Porto, uma t-shirt branca toda amarrotada e de robe roxo, aquele que me ofereceste há quatro anos atrás. É assim que me encontras todas as manhãs, na bancada da cozinha. Ainda meio ensonada e a esfregar o olho esquerdo com os nós da mão direita, caminhas na minha direcção como a água do Guadiana a deslizar pedras abaixo. Nem com as meias cor-de-rosa peludas consegues passar por despercebida. Já te venho a ouvir desde que te levantaste da cama, à espera que os teus braços me apertem a barriga e te sinta o queixo no meu ombro. Não quero mais plenitude do que esta.
Fazes o esperado: abraças-me como as crianças abraçam as pessoas altas; desajeitadamente. Fazes-me sorrir como um adolescente apaixonado; sempre sem jeito quando vê paixão platónica a sair da sua respectiva sala de aula. 

Não sei como gostas das tuas e espero que não te zangues comigo da maneira que o fazes quando não limpo a areia da gata, mas… deixei queimar as torradas. E agora?



Escrito em parceria com André Santos
do blogue shh..

2 comentários:

  1. Boa, Liliana! E poesia, fazem, tu e esse menino?

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    1. Obrigada professora! Ele sim. Deixo-lhe o link do blogue dele, vai gostar muito! Beijinhos
      http://afmsantos.blogspot.pt/

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