14 de agosto de 2017


Hoje apetece-me.
Juntar os joelhos ao meu peito, deitada na almofada que tantas vezes é amarrotada pelos meus punhos. Fechados, junto ao queixo. E eu, despida de mim mesma, aqui à espera que a madrugada me engula. Uma fórmula estranha de dizer por outras palavras que ainda me conformo. De aceitar o conformismo como a equação que talvez um dia me trará a sensação que as aves sentem quando levantam voo. Uma desculpa fraca, como tantas outras verbalizadas, que me obriga a cometer erros que se estendem no vazio, na esperança de que o tempo cumpra o seu velho ditado. Não será essa a razão pela qual vivemos do tempo, nem a resposta pronta a qualquer uma das tuas perguntas. É somente a soma de perguntas não feitas, de respostas não pensadas, num novelo tão grande quanto as minhas próprias dúvidas. Talvez por ser fácil. Dar tempo ao tempo sem que o tempo me dê a mim mesma. 

25 de maio de 2017


Quando acabar - se é que um dia acaba - estarei na mesma estação a lembrar-te que abraços acontecem quando as palavras são insuficientes para o tamanho da própria vida.
E é aí que te abraço de novo.

20 de março de 2017

Seguravas na tua mão o mesmo segredo que te disse no último dia ao ouvido. Sussurrei sílabas soltas, que em ti se juntavam para fazer sentido. Cheguei até a guardar a nossa melodia, aquela que tantas vezes partilhámos. Eram os silêncios que eu mais gostava. Os silêncios e o teu olhar atento que tantas vezes me decorava.
Hoje, esmagas. E aquilo que resta, são já migalhas.

17 de fevereiro de 2017

Percorro a tua caligrafia com os meus dedos, como se neles sentisse cada poro teu. Entro em casa cada vez que te leio, mas não me sacudo. Levo cada pedaço meu a cada divisão, certifico-me de que cada palavra tua é minha também. Desculpa se sou egoísta o suficiente para me querer abrigada, mas o teu abraço pertence-me desde o dia em que os meus olhos tocaram nos rascunhos onde me escondias.
Quem me dera poder desenlear-te todos os dias. 

5 de janeiro de 2017

Aquela brisa que percorre cada fio do teu cabelo, que te arrefece as orelhas e te ultrapassa. Não me visita há algum tempo. Tarda a sua vinda e eu sou incapaz de espreitar a sua chegada. Vou-me enrugando debaixo deste céu, sabendo que não poderei fazê-lo por muito mais tempo. Será assim tão diferente? Não acordar em cima da mesma cama, preparar o pequeno almoço e tomá-lo olhando para a janela. Tardar-me no tempo e o tempo em mim. A verdade é que uma parte de mim se enche de vontade e ânsia mas a outra... a outra repele-se quando pensa nesta aventura.
Breve, brevemente.
Assusta como nunca nada assustou até hoje. Sinto-me tão pequenina. Frágil. Com um peso em cima de mim que nem eu consigo aguentar. Mas o que eu penso quase ou nunca se comprova. Acabo sempre por carregar pesos mais pesados do que eu mesma e chego ao final da estrada, sorrindo. Mas a estrada, agora, não é minha. Não vou conhecer as coordenadas. Não vou saber o nome das ruas. Vou ter de me habituar a andar perdida no metro e a viajar de pé com um computador atrás de mim. Vou escrever. Vou aprender. Vou fazer tantas coisas das quais sempre sonhei. Vou trabalhar para ter aquela carteira na minha mão. Aquela que em tantas noites me abordou em sonhos. A carteira profissional de jornalista.
Mas longe de casa, vai doer. Já dói. Dói cada vez que procuro um apartamento. Dói quando tomo consciência que irei depender de mim e só de mim mesma. 
E a capital... Oh, essa, é tão grande. Tão longínqua. 
Tão cheia de oportunidades. De pessoas. De escrita. De matéria-prima. 
De Jornalismo.
De histórias prontas a serem passadas a limpo.
Por mim.
Falta pouco. Tão pouco. 
Até já!

4 de março de 2016

Quis chegar a casa, colocar as chaves na fechadura e entrar na redoma que me iria fazer esquecer as horas anteriores - pensava eu. Assomaram-me de repente, como quando te tocam nas costas de uma maneira tão inesperada que te fazem arrepiar. O curioso nas voltas que a vida dá, nos capítulos inacabados que ela segue escrevendo, é que nunca aprendes a acostumar-te às surpresas. Gosto delas se não souber que existem. Detesto-as se as sinto por perto e ainda assim tardam em chegar. Foi inesperadamente também que me surgiste, num dia tão indefinido quanto nós próprios, cercado pelas metáforas com que me ancoraste à chegada. Sempre foram as metáforas, o raio das metáforas que te escondiam por trás. Eu, pouco a pouco, passo a passo, decifrava-as como se aos poucos desvendasse um pouco de ti também. Encarava-as como enigmas e juntava-as uma a uma para te conhecer. Para me conhecer. Há de nascer o dia em que eu consiga arranjar uma razão para seres o único a saber ler as minhas entrelinhas, tão bem quanto eu. Até lá, saboreio. Saboreio-te a cada letra.
Tenho-te como mais ninguém te tem.
Foi isto que lhes disse quando me questionaram. Provavelmente agarrei as mangas da minha camisola umas cinco vezes, mas ninguém reparou. Também pestanejei incessantemente quando a resposta era tão robusta como a minha própria imagem de ti, mas ninguém reparou. Nunca ninguém repara. Nunca ninguém reparou. És assim tão louco por quereres ser louco, ou é a loucura que te rouba a sanidade em cada encruzilhada? Não sei. Mas se for para reparares nos pormenores que eu própria desconheço, podes pegar na caneta, sentar-te na minha secretária e seres louco o resto da vida.

Se para te ler, tiver de inventar o mundo
É com prazer que o reinvento

3 de março de 2016

Entrelinhas de dissabores que vais entendendo a cada sílaba. Sintaxe que se desmorona quando não a elogias. Guerras abertas pela melhor frase de cada parágrafo, quando ambos sabemos que eu quero a pés juntos que as armas estejam apontadas somente para os parágrafos ímpares. Parágrafos ímpares que se vão somando a cada anseio meu. Parágrafos esses que declamo com orgulho, colocando a voz naquelas nuvens que um dia eu disse que não iria alcançar. Entrelinhas encarnadas numa melodia que mais do que nossa, é minha. Intrínseco a mim é o teu ser, como se nós fossemos a rima perfeita e impossível de esquecer. Sou amante de poesia sem a conseguir escrever. Embalo-me no enleio do teu silêncio, aquele que dois corpos partilham e somente suportam se, para além do silêncio, partilharem algo mais. Um algo mais que não se adjetiva, que de verbos é feito como se fosse linhas a cruzarem-se no infinito. Somos findos e filhos da incerteza, como se o amanhã fosse as cortinas do palco em que representas para mim. Telespectadora atenta, numa inversão de papéis. Audiência que te chega, que te enche as veias e te incentiva a expelir suor. Sou eu e tu sabes quem eu sou. És tu e sempre soube quem tu eras. As minhas entrelinhas que ainda hoje interpretas são o tanto do que eu guardo de ti. Em mim. 
Um tanto sem medida, tamanho de uma vida.